É uma merda. Atinge-nos por dentro, onde dói mais, tornando doloroso até o respirar. Queima-nos por dentro, esvazia-nos a alma e esventra-nos os sentidos. Afecta-nos a concentração e traz recordações. Umas boas, outras menos. É um vazio impreenchível, uma dor insanável que nos mata aos poucos a cada novo amanhecer. Ai o amanhecer! Como dói a percepção de que não tivemos apenas um sonho mau. Como é terrível saber que o lado direito daquela cama não será mais ocupado, que a caneta que te acompanhou durante tantos anos não mais assinará o teu nome. Como dói sentir que o teu cheiro se desvanesse um bocadinho mais de cada vez que se abrem as tuas gavetas, cheias com as tuas coisas que cá continuam. Tento manter as tuas coisas nos lugares onde as alinhavas com a precisão que sempre te caracterizou. Mantive as marcas dos livros que não terminaste de ler nos sítios onde as deixaste, adoptei como minha a lapiseira que usavas, embora não saiba onde compravas as minas para tão antigo modelo. Olho para a tua fotografia que tenho no quarto a cada noite e a cada manhã, e tento manter vivas as lembranças de 20 anos a teu lado. 20 anos de ensinamentos, de cumplicidade, de valores e princípios que desde sempre me incutiste e pelos quais me rejo e me hei-de reger para, de alguma forma, seguir o melhor modelo que alguma vez poderia ter tido: tu, o meu herói desde sempre, o meu braço direito e, acima de tudo, um amigo.
Não é justo, caramba. Não era suposto. Falta-nos fazer tanta coisa, bolas. Ficou tanta coisa por fazer e por dizer.
Isto é uma merda.
"Nossos corpos também são pátria"
Há 8 meses

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